Ainda Scolari...
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Antes de mais, devo dizer que não sou advogado de defesa do "Sargentão" nem sequer o seu maior fã. Para além disso, não estou de acordo que um brasileiro treine a "nossa" selecção. No entanto, penso que nos temos que abstrair dessas "condicionantes emocionais" para analisarmos, de forma capaz e justa, o trabalho efectuado pelo profissional que está à frente dos destinos da selecção nacional.
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Num blog anterior realcei três características que considero serem as grandes mais-valias de Scolari:
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1ª Formou um grupo de jogadores unido
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A capacidade que Scolari possui de gerir da melhor forma um grupo é, aparentemente, excelente. A forma como os jogadores se entregam ao jogo e a solidariedade que demonstram entre si, revelam que o trabalho psicológico a nível grupal e individual resulta na perfeição: não há casos de indisciplina, não me lembro de haver "guerrilhas" internas nem trocas de palavras menos agradáveis entre elementos da comitiva, não há saídas nocturnas nem passeios pela praia de madrugada durante as concentrações e competições... Mesmo depois do início desastroso no Euro com a Grécia e da mudança profunda efectuada no onze base depois desse jogo, a nau não afundou, nem sequer esteve perto disso. Os índices de motivação e confiança dos jogadores continuaram elevados e o resultado foi o que se viu: somos vice-campeões da Europa! No post "A Selecção de Scolari" questiona-se ironicamente se "Fernando Couto, Rui Costa, Vitor Baia e até Figo (lembram-se do Portugal – Inglaterra?) referências maiores do nosso futebol nos últimos 15 anos (...)" partilham da opinião que enunciei atrás. Em relação a Baía, penso que não deverá ter uma opinião mais credível que a nossa uma vez que nunca foi convocado por Scolari; Couto fez o 1º jogo do Europeu com a Grécia, saíu da equipa com a Rússia, mas quando foi chamado para defender o resultado com a Espanha, apareceu em grande nível e com uma enorme vontade de ajudar; Rui Costa também foi retirado da equipa depois do primeiro jogo, mas a sua resposta nos encontros seguintes fala por mim...grande jogo com a Rússia e fantástico encontro com a Inglaterra, marcando inclusivamente 1 golo em cada jogo; Figo não gostou de ser substituído no jogo com a Inglaterra mas, no jogo seguinte, fez a sua melhor exibição do Euro diante da Holanda. Penso que fica assim comprovado que o "Sargentão" é forte no aspecto psicológico, curiosamente fazendo uso dos exemplos que foram indicados (erradamente) como provas do contrário.
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2ª Conseguiu unir o país em prol da selecção
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Atrevo-me a dizer que Luís Filipe, desde que me lembro, foi o treinador que mais "jogou" com a ajuda dos portugueses. É óbvio que um Europeu jogado em Portugal seria sempre um motivo de união (pelo menos até ao primeiro jogo), qualquer que fosse o seleccionador (recorde-se o excelente Mundial de sub-20 de 1991). No entanto, defendo que Scolari teve um papel importantíssimo depois da derrota no jogo inaugural, o qual poderia provocar uma péssima reacção na esmagadora maioria das pessoas e uma pressão extra exterior para os jogadores. O brasileiro proferiu um discurso de tal forma encorajador que teve o condão de promover uma interacção ainda maior do que aquela que havia antes do início da competição entre púiblico e jogadores, conferindo ao público a responsabilidade de puxar pela equipa e mentalizando-o de que o jogo perdido foi "apenas" um jogo e de que haveria muito mais para acontecer. Tudo isto, para além de serenar a equipa, fez com que a mesma se superasse no sentido de retribuir e agradecer no campo a segunda oportunidade dada pelos portugueses depois da frustração que foi a derrota no primeiro jogo. Tenho dúvidas de que algum treinador português conseguisse ter "mão" suficiente para acalmar e "reunir"um país inteiro enfurecido depois da derrota inicial...
Quanto à crítica efectuada relativamente à pouca afluência de público aos jogos da selecção pós-europeu, penso que carece de veracidade. O jogo que teve menos assistência foi precisamente com a Rússia (cerca de 20000 espectadores em Alvalade, mas isto depois de um empate desolador três dias antes no Liechstenstein...). Os restantes jogos registaram casas lotadas, incluindo diante da Eslováquia (essa "equipa pequena") na Luz, onde estiveram 65ooo adeptos fervorosos.
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3º É o treinador campeão do Mundo
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Esta mais-valia permite a Scolari ter sucesso nos dois pontos que referi em cima. Tanto os jogadores, como o público, e até a própria comunicação social, têm muito respeito pelas ideias que o seleccionador defende e confiam nas suas capacidades, pelo facto de estarem perante o actual seleccionador campeão mundial. Aliás, penso que as grandes equipas necessitam de um treinador cotado e que consiga impor respeito para serem disciplinadas e renderem o máximo do seu potencial.
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Discordo ainda das seguintes afirmações presentes no post "A Selecção de Scolari":
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- "O Euro 2004 foi o pior Europeu de sempre em termos de futebol jogado": em primeiro lugar, penso que a qualidade até foi bastante boa. Vi algumas boas partidas de futebol e selecções como Portugal, Inglaterra, Rep.Checa, Holanda, Suécia e Dinamarca a praticarem um futebol vistoso e ofensivo; no entanto, também não posso chegar ao ponto de dizer que foi o melhor europeu de sempre porque, infelizmente, não vi com atenção as primeiras edições da prova...;
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- "o jogo com a Espanha foi um milagre (3 bolas nos postes de Ricardo...)": de facto, Portugal teve alguma sorte nesse jogo. No entanto, ainda estou para conhecer alguma equipa de sucesso que não tenha tido sorte nalgum jogo. Para além disso, e já que se fez uma comparação com o Euro2000, o que dizer da mítica e fabulosa reviravolta no jogo com a Inglaterra? Nesse jogo, depois de estarmos a perder por 2-0, os britânicos falharam uma oportunidade escandalosa que daria o 3-o que acabaria com o jogo e, provavelmente, eliminaria Portugal logo na 1ª fase.; e o que dizer do golo de Costinha com a Roménia aos 48 minutos da 2ª parte??? Enfim, poderia aqui juntar imensos casos de euipas campeãs e gloriosas que chegaram ao topo com a ajuda da sorte... .
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Pois é.... Também eu tenho imensa pena de não termos uma selecção 100% portuguesa. Mas o que é facto é que, na minha opinião, analisando fria e ponderadamente, Scolari está a fazer um bom trabalho à frente da "Equipa de todos nós".


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